domingo, 9 de maio de 2010

Lendas da Paixão


Dispo de medo o cansaço ausente
falta de sombra nesse escuro presente
o suor de quem clama por horizontes escondidos
essa procura entre segredos outrora omitidos

Sobre o cipreste da razão
folha podre prostrada em minha mão
a sede de anseio que sobre os olhos caminha
o mistério atrás das paredes deste céu

Devassam-se os desejos entre a pele gasta
marcada, fingida, sentida, perdida
o toque da pena nesse mastigar solúvel
de um segredo atrás nesse tempo visível

Entre as lágrimas da chuva pesadas
dessas mágoas de lamúria carregadas
o abraço do longe nesse apagado traço
a escrita sem cor nessas linhas sem dor

Despidas as árvores do calar nocturno
madrugadas as folhas nesse despertar repousado
as almas perdidas em solidão encontradas
nesse funeral de paixão de imagens criadas

domingo, 2 de maio de 2010

MEDO

Vivo amedrontado pelo medo de ter medo
pelo medo de ser medo e pelo medo que o medo me tenha
amedrontado sei que existo, porque do medo o medo persiste
medo do medo tenho porque do medo sei que tenho medo

Há em mim um medo de ter medo
de experimentá-lo, de senti-lo, de o tentar
tenho medo do medo que não tenho e que possa vir a ter
tenho medo do nada de nada ter e de tudo medo ter

Sou medo que vagueia e que medo tem de ser
rogo pelo medo, pelo medo de o medo não me ver
vivo com o medo pelo medo de pensar
morro sem o medo com o medo de o medo me matar...

sábado, 24 de abril de 2010

A era dos sentidos

Relatos esquecidos da memória abrangidos
escritos, tempos fingidos do nada erguidos
o passado que é hoje porque o foi um dia
esse momento logo que o futuro a demais adia

Perseguem-se os inauditos, os mudos de si já surdos
atormentam-se os calados do silêncio desprezados
apontam-se os expressivos que tudo dizem para nada fazerem
essa coragem de pernas tortas sem altura, sem estrutura

Enlouquecido, o tempo divaga o acontecido
despertada a loucura nos meandros da viagem
sem sentido soluçado confuso e guardado
esse tempo agarrado a que tanto me desagrado

E se os dias são horas a que os segundos crescem
as datas são viagens sem porto de abrigo
a terra jamais vista, por nunca ser contada jamais acreditada
do alto do sul, o quebrante do sonho no distante horizonte

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Mórbido-Comum

Numa massa novelada de ideias mórbidas
eis que cantam as águas de sangue
nascente etérea que me cansa a leveza
do desnudo enleite o que me subestima a dureza

Queirando desbutar-me, enfim preclaro alcançar-me
agarrar o firmamento com as enxadas do tempo
quebrando o orgulho que em ousadia me queima
a desnuda mente que perpassa as marés do contratempo

Arremessei de madeira a vontade erguida
manobras fiz na minha alma certa e fingida
sombra que a realidade me cobre e em tudo me chove
e que ninguém do sonho me assusta o nada

Marca de ti...

Subterrânea intriga conscenciosa
projecta em minha mente pecaminosa
o augúrio, vasto terreno fértil de pecado
pousio atroz que me invade o ser amado

O ser beijado, de tão erótico, molhado…
o ser pecado de tão leve rogado…
o beijo triste tão melancólico em mim marcado
fugaz assente chamado no sexo vergado

O ser etéreo do mais invisível ao mais desprezível
preenche o vazio da realidade, a chama pura da verdade
de tão pequeno, o todo nada pela metade
que me desgastam nas pernas, os braços que suportam tal falsidade

o engano atrás dos dedos...

Atrozmente, roçamos os desejos no mesmo sangue
nesse entulho e desvairado sonho poético
que me encalça o mórbido de lama chama
sujo de sujidade no entulho que me faz a cama

O incomum pensamento que me atormenta o vazio
preenche de silêncio o rasgado desejado
fatal construção que destrói do mito a sensação
de quem se toma, por quem se diz…

Descontrolado, o etéreo musical desafinado
já si pelos versos chamado
acaba as estradas de meus esforços inúteis, por bem, por mal
o fim, o encalço do começado iniciado pelo final…

Passando a vida a enganar as minhas verdades
preenchendo-as de linhas vazias, silenciadas
rasgo o sexo do mais fundo o mais sexuado
do mais porco, o mais afrodisíaco bocado…

O velho-novo

Em ideais desvairados
quais sugestões mal pensadas
os olhos cavam a face imersa
estancados no fundo da uma tão dureza

Enrugado de preponderantes defeitos
perpetrados de curvas, esses fracos enleites
a face deixa que o tempo descanse
e que nas suas curvas o cansaço se canse

Cinge-se a verdade de um irreal conseguido
a realidade, essa, se existe não persiste
no desgaste já fundo de um esquecido infinito
que nasce do silêncio do horizonte emergindo em grito

Manejado está o enfeite do destino começado
já nada assinalado neste augúrio caminho parado
palmilhado os remorsos, queimado os destroços
conta do zero os cem que em tempos eram nossos